sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Pra ela, a cabeceira


Avô torto mesmo só por uma questão de destino. Não era o pai biológico da mãe da menina. Mas isso era compensado com uma retidão, não feita com régua, dessas calculadas milimetricamente e cheias de artificialidade. Uma retidão construída pelo esforço, à base de paciência, dificuldade. Trabalhando na mercearia tentava manter uma ordem invejável, prateleiras limpas com as latinhas de azeite viradas na mesma direção. Os tomates recebiam tratamento especial e iam para a banca enfileirados um a um. Além de rígido com a organização, não abria mão de certos rituais. O domingo era feito para acordar cedo e fazer o tempero do almoço. Entre os exageros, a variedade de condimentos. Cebolas picadas em rodelas grandes, ramos fartos de salsa e coentro, pimentão até falar chega. E quando falava chega, colocava mais um pouco para finalizar. 

Todos degustavam a carne, feita semanalmente do mesmo modo, sentados à mesa. Alguns até queriam comer vendo televisão, mas cadê a coragem? O avô torto/reto falava com os olhos, e esses diziam com muita clareza: almoço é para reunir a família. Lugares bem definidos. E a cabeceira da mesa, aquele senhor, sem nunca ter dito o motivo, reservava para a esposa. Tudo isso a menina conhece de ouvir as histórias que ninguém esquece. O tempo roubou o privilégio desse encontro. Só o viu por foto. Com o avô aqui, não teria essa de celular ao lado do prato, muito menos envio de mensagem entre uma garfada e outra. Mas as coisas poderiam ter um tempero diferente.  

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Roupa de domingo


A camisa só poderia ser uma. Lavada a mão, não merece o mesmo destino de tantas outras, da meia suja, da calça desbotada, do pijama verde de ursinho. Tudo vai pra máquina. Ela já ganha sabão neutro, seca à sombra apenas com o carinho do vento. Dá trabalho, mas a menina nem liga. Até gosta. A vestimenta não obteve seus contornos com seda, chiffon, tule ou outros desses tecidos bacanas que dançam nos bailes de formatura, casamentos e aniversários de 15 anos. 

Longe dessa elegância toda, a camisa, ao contrário, deixa a menina com “jeitinho de menino”, daqueles que esfolam o joelho sem medo na infância. Dizem que é feita com material que ajuda a drenar o suor, mas pouco importa. Antes de mais nada, é linda. Roupa de domingo, principalmente, e das quintas e sábados, mesmo sem aparentar um traje dos mais femininos. Larguinha, já beijou o chão inúmeras vezes a cada tombo, falta de jeito da jogadora adversária ou empurrão bem arquitetado. Chega o fim de semana e a menina procura ansiosa por ela no guarda-roupa. Tem pressa de gritar gol e brincar de ser feliz. 

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Até acertar na mosca


Se o ângulo não estiver certo e a força na medida exata, não há boa vontade que dê jeito. Não pode faltar nada, muito menos fugir um milímetro do lugar. Ai que mora o problema. Tudo parece mais fácil quando o resultado está apenas nas mãos da dedicação. Ou você quer ou não quer. Mas, na maior parte dos casos, a participação dela parece muito pequena. Já combinar as outras coisas depende de muita experiência e de toda a sorte que aparecer: errar muito, ir errando menos, cometer pequenos enganos, leves deslizes até acertar 100%. 

E como é ruim ver que escapou. Pior ainda depois de tantas tentativas. Parece mais uma oportunidade que se foi, única e infinitamente melhor do que todas as que se passaram e as demais que estão por vir. Tudo em um instante. Agora a menina trocou o taco e não exagera mais na quantidade de giz. Enquanto espera o estrago que fará o seu oponente, não sabe se vale a pena arriscar na caçapa da ponta. A ansiedade faz pensar em como agir antes mesmo de chegar a sua vez. Vai que tudo muda? Melhor esperar. E como é ruim. Continua tentando da melhor forma. Isso não é só sobre sinuca.  

domingo, 29 de junho de 2014

Tá devendo?


Um casal chega na sala de espera e a menina mal observa. Tenta se distrair com uma revista velha de fofocas. A capa e o miolo já se separaram faz tempo, assim como a atriz e o cantor que são destaque na reportagem principal. Para manter unidas as partes da publicação, a secretária da médica já tentou cola, fita crepe e durex. O êxito de cada um desses recursos durou pouco. Já as celebridades da foto de casamento insistiram bem menos e se arrumaram cada uma em um novo caso. Como as notícias daquela revista de notícias não têm mais nada, a televisão desvia o olhar da menina. Mas não consegue fazer o mesmo com a audição. Som alto em consultório não dá. Só que também devia ser proibido colocar a TV no mudo e se servir daquelas legendas eternamente atrasadas. 

O casal sentado ali na esquerda, de tão discreto, chamou a atenção. Encontram para passar o tempo a companhia um do outro. Ele fala com voz suave, mais por se dirigir à namorada do que pelo silêncio que o local exige. Faz um relatório completo sobre como foi o dia, sem deixar escapar a quantidade de comida que esteve no prato durante o almoço. Dizer com quem almoçou, para quem deu carona e com quem conversou parece muito relevante enquanto usa a ponta do dedo para definir, ainda mais, os cachos da namorada. Entre beijinhos que produzem estalos quase imperceptíveis, o garoto retira da mochila um pacotinho de chocolate daquele bem vagabundo. Baratinho mesmo. Come um pedaço e leva o seguinte para a boca da namorada que aceita com jeito de quem merece o agrado. A conversa segue. Será que o moço andou fazendo algo de errado?

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Para mais ou para menos


O barulhinho da chapa quando a concha despeja o líquido que em breve será promovido a massa. Um pouco de leite, outro tanto de farinha e um algo mais que a menina não sabe o que é. Nem faz ideia, mas isso não importa. Com um instrumento metálico e movimentos que parecem displicentes e ao mesmo tempo cheios de alguma técnica simples, já treinada exaustivamente, ele ganha forma. Ah, o crepe. Aquela senhora de gorro branco na cabeça pensa inocentemente que está apenas fazendo o trabalho de todo dia, um crepe seguido de outro, enquanto sonha com o bendito fim do mês. Como subestima o seu ganha-pão!   

A menina vê outra coisa. Esperou por aquele momento durante três dias. Imaginou com ansiedade a hora de sentir o gosto daquela receita feita assim, tão rápido. E pôde apreciar, praticamente de camarote, cada segundinho da trajetória da massa, das fartas colheres de creme de avelã que envolviam as rodelas de morango como em um abraço carinhoso formando o recheio. “É para comer aqui ou para levar?” A senhora de gorro branco na cabeça precisa saber. Do prato para a boca, o sabor se perdeu. Não era nem de longe como o esperado. Pode ser culpa da expectativa ou o crepe ficou um tempinho a mais ou a menos no fogo. As vezes a espera é mesmo muito melhor. A menina bem sabe.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Descompasso


De uma hora pra outra, o garoto virou caranguejo. Não que se trata-se de um personagem daqueles do Realismo Fantástico. Apenas decidiu, metaforicamente, não andar mais para frente, optando pelos movimentos laterais. Vulgo, sair pela tangente. O desejo era caminhar definitivamente para trás, mas faltou coragem. O motivo: a menina que o acompanhava naquele curto percurso só queria ver o que existia adiante. Com a demora em ser avisada, ambos protagonizaram uma dança que até os mais bêbados fariam de modo menos desajeitado. Ela para frente e ele para o lado. E não haveria tecnologia da Nasa, iguarias italianas ou poção mágica para mudar a trajetória de cada um. 

Entre palavras rebuscadas e grandes delongas o menino parou e decidiu fazer o que realmente queria. Foi honesto? Será que foi honesto? Apenas uma imposição das circunstâncias. Vai ver estava tonto com o descompasso que ele mesmo criou. Dá trabalho seguir adiante. A menina até se submetia a andar em círculos eventualmente, mas para trás nunca. Questão de princípios. Desde então, foi convidada a dançar sozinha, o que parece difícil só que permite reinventar os passos e errar sem se sentir ridícula. Basta disfarçar fingindo que criou uma coreografia nova. Pra completar, ainda dá pra fugir da dependência de quem não sabe dançar.  

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Um “m” torto


Quando bem pequena, lá na escola, a menina descobriu que tinha um problema na mão direita. Nada muito grave. Apenas um defeito, percebido durante uma brincadeira  daquelas de roda. É que toda mão tem umas linhas mais grossinhas na palma organizadas em forma de “m”. No caso da menina, veio errado. Os traços se enroscaram aparentemente gerando um esquisito “A”, sem o risco do meio, ou, com muito boa vontade, alguém poderia enxergar um “m” torto, daqueles que se escreve nos primeiros anos rumo à alfabetização. Essa observação, bobagem de criança, parecia trazer implicações que levariam à loucura os maiores especialistas em Quiromancia. 

Logo na mão direita, aquela vista como a principal! O mal formado “m” gerou inocentemente as mais variadas interpretações. Se aquelas linhas seriam o indício do que viria pela frente, só restava esperar por um caminho na vida tão estranho quanto elas. Aos mais otimistas, o significado remetia a um sucesso diferenciado. O “m” não saiu da mão e povoava também a cabeça da menina. Poderia ser a explicação para os amores confusos que viriam, habilidades precoces, oportunidades tardias e tudo mais que foge do convencional. Se bem que problemas com o amor e as expectativas dribladas pelo acaso sempre foram reclamações coletivas. Então, pra quê um bendito “m” com jeito de “A”? Qual a serventia? A menina ainda não foi esperta o bastante para saber. Mas em todo caso ainda perde tempo com bobagens de criança. 

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Hora de voltar


Sentadas bem no meio de uma ladeira, na mais bela cidade de interior, quatro garotas compartilham uma garrafa de vinho, que era dos mais vagabundos. Ainda bem, porque qualquer traço de luxo roubaria a beleza da cena. Elas estavam livres de qualquer preocupação, regra ou restrição. Poderiam permanecer ali com a maior das garantias de segurança. Se carro em cidade pequena é coisa pouca, que dirá no meio da madrugada. O motorista que aparecesse, como de costume em qualquer vilarejo, encontraria um jeito de desviar calmamente para não atrapalhar o sossego de ninguém. Já que era virada de sábado para domingo, também passeavam longe os pensamentos no excesso de trabalho, na prova difícil da faculdade ou no namorado distante. Ah o poder do álcool! Higienizador de mesas e mentes.  

Da janela de uma casa velha, com as beiradas pintadas de azul royal, a menina observava aquilo tudo com inveja contida e encantamento. Nunca havia experimentado aquela sensação. A cabeça levemente conservadora não permitiria, mas tinha uma noção precisa de como tudo aquilo poderia ser bom. Liberdade descompromissada que a menina não sentia há anos e, agora, voltava a aparecer. Essa mesma tranquilidade de escrever de novo com todo o afeto que o português merece sem as amarguras das frases feitas. Distante daquelas construções forçadas ao alinhamento da lógica de sempre. Com carta branca para as repetições intencionais e respeito aos erros que, é claro, podem surgir em qualquer lugar. Assim, depois de mais de doze meses os dedos deixam de bater no teclado, apenas caminham. Já era hora de voltar!           

domingo, 13 de janeiro de 2013

Livro trapaceiro



Dentro da loja, apenas livros em liquidação. Coitada. A menina foi até lá para fazer o mesmo que tantos outros diante de grandes promoções: gastar de forma despreocupada, agora, para se preocupar muito nos próximos dias e meses. E o peso não seria apenas no bolso. Os braços quase não davam conta dos sete volumes, dois com cerca de 200 páginas, três com pouco mais de cem e outros dois com 300 cada. A consciência também perdeu a leveza. Comprar é muito bom, gastar com o que se gosta é ainda melhor. A possibilidade de não conseguir aproveitar o que acabou de adquirir incomoda. Era praticamente jogar dinheiro fora. A garota sabia que não poderia ler aquilo tudo tão cedo. Dois empregos e dois cursos fazem com que o saldo das horas de cada dia se torne negativo ao somar o tempo necessário para lazer e descanso. 

Assim alguma coisa ficava sempre de fora. O sono é que não era. Tentou montar uma escala para aproveitar até o intervalo do almoço e o trajeto de ônibus. Colocou cada livro em ordem de prioridade e calculou a velocidade de leitura. Como todo sistema rígido demais, deu errado. Até se questionou se não teria sido mais esperto da parte dela ter  entrado em uma loja de roupas do que em uma livraria. Para usar um vestido novo, a disponibilidade não importa. Basta ter um corpo, não importando se ele está cansado ou não. E ainda apareciam os amigos para emprestar livros que, imediatamente, furavam a fila. Livros trapaceiros. Dessa forma, os sete viraram 12 rapidamente. A pilha na cabeceira não deixaria de ser um problema quando terminasse. Até porque não terminaria nunca. O jeito foi enxergá-la de outra forma. Rastros da velha mania de encarar a diversão de maneira tão metódica quanto o trabalho. 

domingo, 6 de janeiro de 2013

Sossego compartilhado



Distante de casa, a menina passeava nas proximidades de um sitio arqueológico. Alguns tiravam fotos, outros trabalhavam guiando os turistas e uns poucos estavam lá com ferramentas para escavar e revelar o que a terra escondia. Só ele parecia não fazer nada. Ou melhor, gastava o tempo se dedicando ao que muitos sonham na vida: conseguir relaxar mesmo em meio a agitação. O cãozinho tão pequeno, frágil, se mantinha despreocupado de tal maneira que nem parecia ser possível naquele contexto. A garota logo pensou que ele poderia não estar vivo. Só isso explicaria tanta quietude. Se aproximou bem lentamente, já com pena do animal que não estaria mais vivo. Só que ele estava. 

Respirava com a leveza de um sono de criança que adormeceu bem alimentada, de fralda trocada e depois de ter escutado uma história. O cachorro fazia movimentos tão sutis, que só mesmo quem estivesse a alguns centímetros seria capaz de ver. A orelha balançava subindo e descendo como se ele acenasse discretamente para alguém. Os dedos das patas dianteiras se curvavam com suavidade como se fosse um empenho de quem tenta disfarçar que está sentindo cócegas. Encantada com o comportamento do animal, a menina demorou um pouquinho para se afastar. Só fez isso quando se deu conta de que poderia atrapalhar aquele instante de paz. Ela até gostaria de viver um pouco daquele sossego, mas sem que o cãozinho perdesse nem uma gota de tudo aquilo.     

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Para sentir um arrepio



Estava frio, mas ela só conseguiu sentir calor. Alguns podem pensar que era porque havia caminhado muito e subido grande quantidade de ladeiras. Mas não era só isso. Não era simples assim. Um pouco de atividade física não disfarçaria as sensações provocadas pelos 15°C e 2.400 metros de altitude. O que talvez fazia a menina se sentir aquecida era uma espécie de estado de choque, não provocado por um trauma, mas gerado por uma alegria esquisita. Ao terminar o percurso, ela se sentia leve não pelo gasto de calorias. Deixou coisas para trás que carregava sem saber, sem se lembrar. Algo infinitamente mais pesado que as gordurinhas do churrasco de fim de semana e bem mais compactas também. 

Lá em cima, a menina via uma grande cidade antiga. Nunca invadida por nenhum conquistador, por mais esperto que fosse.  Onde não se viu derramamento de sangue mesmo quando abandonada pelos seus habitantes. Construída com o cuidado dedicado ao que pretendia ser um pedacinho do céu bem longe das nuvens, talvez não tão distante assim. Lugar preservado com um orgulho perfeitamente justificado por tamanha beleza. Talvez, por isso, a garota sentiu um arrepio na pele que não era sinal de frio. Parecia uma onda de calor que envolvia a alma e depois apertava de maneira forte e acolhedora. Um tipo de alegria com status de felicidade.  Pena que pra quem sobe sempre resta no destino a volta pra baixo. 

sábado, 29 de setembro de 2012

Roubando o lugar do não



Ela acabou descobrindo com o tempo que as coisas na vida, por mais complicadas que sejam, acabam convergindo para uma pergunta com apenas duas possibilidades de resposta: sim e não. E para passar pelo mundo fugindo dos olhares de reprovação, elegeu o “sim” quase que como resposta única. Rejeitar um presente, um pedido de ajuda ou uma ordem seria o caminho mais curto para que a garota tão estranha  vivesse ainda mais sozinha. A menina foi desde pequena se orientando para não desagradar quem quer que seja. Talvez essa seria a chave para a completa aceitação. Talvez fazer os trabalhos da escola para aquele colega mais preguiçoso, ficar acordada até tarde para revisar os textos de um vizinho ou emprestar o CD favorito, mesmo sabendo que ele dificilmente voltaria, fossem boas estratégias. Afinal, quem seria capaz de não tratar bem uma pessoa sempre prestativa? 

Foi assim que aprendeu a sufocar o “não” mesmo quando ele estava por lá para garantir que a menina seria respeitada. Como essa lógica não tinha nada a ver com a lógica da vida, por sinal sem lógica nenhuma, só poderia dar errado. Estava correta mesmo era a lei da física de que toda ação produz uma reação de mesma força com sentido contrário. Enquanto o “sim” roubava o espaço que deveria ser do “não”, e o contrário também acontecia, o respeito pela vontade dos outros provocava o desrespeito, em igual medida, ao que fazia bem à garota. Tudo por escolher o destino  diferente do que se quer fazer. Agora ela deve ter entendido, mas infelizmente a distância entre saber e agir continua sendo longa.    

domingo, 19 de agosto de 2012

Vê se pode?!


Assistia filmes de terror a noite e com a luz apagada. A menina fazia isso quando tinha 8 anos e achava tudo o máximo. Aquele clima de suspense, a sensação de demostrar aos outros como era uma criança corajosa, principalmente para o irmão mais velho, tornava tudo ainda melhor. Claro que na hora de dormir a história era outra. Ela via em qualquer sombra de um móvel a presença discreta do Freddy Krueger. Uma pasta mal colocada em cima do guarda-roupa era igualzinho ao famoso chapéu do vilão. E as gradações de luminosidade permitiam fantasiar que ali estava a conhecida camisa dele, listrada com as cores do Flamengo. E como o universo desses filmes tem personagens para todos os gostos, também sobrava espaço para os brinquedos assassinos, bonecos deformados, e mocinhas que davam sentenças de morte via telefone. 

Mas naquela época, o medo aparecia com uma pitada de diversão, suavizado pela ideia de que o sono logo vinha e a claridade da próxima manhã também. As cenas eram assustadoras, mas nada que gerasse nojo ou algum incomodo maior. Estranho mesmo é que o mal estar diante do horror das telas só apareceu quando a infância foi embora. A menina começou a não se sentir muito a vontade com massacres de motosserras, golpes de machados na cabeça e gritos de pessoas aprisionadas. Pode ser porque quando se é pequena a realidade e a fantasia podem se vestir de verdade ou mentira com a conveniência dos pais e dos filhos. Tudo para manter as barbaridades da vida mais distantes. E ainda tem criança querendo crescer logo... Vê se pode?!    

domingo, 5 de agosto de 2012

Em segundo plano na vida



A menina saiu de casa para cuidar da própria vida. Não, ela não estava se mudando para viver como adulta longe da família. Fazia isso perto dos pais mesmo e não via nenhum problema nisso. O que ela tinha decidido era resolver pequenas pendências que sempre ficavam para trás porque a garota pensava: “Isso aqui não vai atrapalhar a vida de ninguém, então deixa para depois ou para nunca mais”. Mas ela estava enganada ao não tratar certas coisas tão pequenas como prioridades. Afinal, adiar uma visita ao médico, não renovar um documento já com a validade vencida ou deixar as roupas sujas se acumulando no cesto mostravam o descaso que mantinha com alguém tão importante: ela mesma.

A ânsia em deixar os outros sempre satisfeitos, fazer favores e oferecer ajuda para ser aceita, só trazia uma angustia que não passava. Era impossível garantir que todos estariam bem, o que inevitavelmente aparecia para ela como sinônimo de fracasso. Além disso, revelava como a menina se colocava em segundo plano na vida. Talvez por isso aquela saída para tirar o passaporte, fazer exames e ir ao banco carregava um significado especial que a bendita burocracia e a imensa fila não conseguiam apagar. A cada pendência resolvida ela se sentia como reservando um momento exclusivo para si mesma. E isso acabou gerando um efeito cascata. Apareceram mais e mais coisas para resolver e quando não surgiam ela inventava. Era bom demais cuidar de alguém que merecia tanto.

terça-feira, 3 de julho de 2012

Um envelope para ser feliz



A menina tinha acabado de completar 18 anos, mas ao olhar para o passado a sensação era de estar com uns 70 e não ter aproveitado nada da vida. Claro que isso é fruto de um dos resquícios da adolescência: o mesmo jeito dramático de encarar uma espinha, a perda de um namorado ou doença na família. Sem se dar conta disso, foi inevitável mergulhar em comparações com a melhor amiga, a irmã, a mãe, a pior inimiga e até o cachorrinho de estimação. Já carregava desde sempre a sensação de inferioridade por nunca ter feito uma bela viagem, nunca ter namorado, nunca ter ido a uma festa de casamento nem ao teatro. Eram muitos nuncas na cabeça. E naquela altura da vida, não tão alta quanto parecia para ela, precisava fazer alguma coisa para poder se sentir como se fosse alguém como os outros.

Abriu a gaveta da mesinha do computador e encontrou um envelope pardo e uma folha de papel ofício. Decidiu que a partir daquele momento ia sair em busca do novo e registrar cada nova conquista, cada passo até se tornar uma pessoa normal. Foi anotando no papel o primeiro Milk shake, a abertura de uma conta em banco, a compra de um depilador elétrico. Guardou o papel no envelope e para cada anotação tratava de colocar junto uma prova. Valia o ingresso do cinema, uma nota fiscal da comida tailandesa, a pazinha de um sorvete diferente. Era uma forma de arquivar dados objetivos que comprovassem que a menina não estava simplesmente deixando a vida passar. Algum lugar para visitar quando achasse que nunca tinha sido feliz. Passou a correr atrás de tudo o que via pela frente simplesmente para sentir o alívio de encher o envelope. E de tanto fazer isso passou a não ter mais tempo para conferir as anotações. Esqueceu de verificar com regularidade se estava sendo feliz. 

domingo, 22 de abril de 2012

A unha quebrou



Ela caiu da escada. Não foi nenhum daqueles tombos que viraram moda nas novelas em que a mocinha vai elegantemente rolando até descer por completo. Mesmo porque a garota caiu apenas do quinto degrau e estava subindo. Nos poucos segundos em que tentou se machucar o mínimo possível, foi ralando o cotovelo, batendo o joelho e cortando a parte de baixo do dedão direito. A unha do pé esquerdo que já estava parcialmente trincada, fruto de um chute acidental no canto do sofá, se partiu de vez. A menina estava protegendo aquela unha com um band-aid há dias, mesmo sabendo que uma hora ela iria se soltar e que isso seria necessário. Provavelmente tudo por medo de como seria ficar sem ela de uma vez e aguentar as consequências de deixar aquele pedacinho da pele desprotegida. Sem poder fazer nada, tratou logo de levantar do chão e perceber que a roupa não era mais branca, e sim marrom com tonalidades de vermelho. 

Ficou aliviada porque ninguém viu o que aconteceu, apenas escutaram o grito e quando as pessoas de casa foram olhar a menina já estava de pé. Pena que deixar algo escondido não faz com que não tenha acontecido. Se levantar imediatamente para escapar da vergonha não impede as cicatrizes nem deixa a roupa menos suja. A unha se soltou sem a menor possibilidade de retornar ao que era, fazendo do tombo na escada o complemento de uma pancada anterior. E já que tudo é uma sequencia, agora vem o momento da espera, a unha cresce, o sangue coagula e a roupa, só jogar na máquina que ela resolve. E como seria elegante se todas as coisas se comportassem como as camisas, calças e vestidos. Era só a lavadora se encarregar de tudo.   

domingo, 15 de abril de 2012

Alegria dos outros



Ela sentou no ônibus e inevitavelmente se aproveitou para ler as notícias do jornal do senhor que estava ao lado. Ele virou a página, começou a ler algumas piadas sobre sogras, portugueses e nordestinos e não parou de gargalhar. Ria com a naturalidade de quem acha algo realmente engraçado e seguiu dessa maneira até o momento de descer. Já a garota estava triste e não teve como não sentir inveja daquela alegria momentânea e tão pura. Ela até se permitiu exibir suas tristezas em forma de lágrimas que logo se encarregaram de ficar escuras. Culpa de quem acha que comprar lápis de olho a prova d’água é bobagem. E quando lembrou que havia se maquiado foi logo secar as lágrimas, mas a magoa de dentro tratou de enfeiar a beleza produzida do lado de fora.

Estava mal pelo cansaço de noites mal dormidas, muito trabalho, textos para ler e pelas más notícias que sempre veem embaladas como se fossem bons presentes. Pensou em como as coisas boas se tornam ruins e o contrário também. (No segundo caso, muito de vez em quando, mas fazer o que?) Mas o gosto salgado das lágrimas ajudaram a lembrar o mar e as últimas férias. Tentou pensar em coisas boas para ver se passava, mas não foi muito eficiente. Resolveu escutar música para ignorar o engarrafamento e afastar a melancolia. Às vezes isso funciona. Não deu certo, mas valeu a tentativa. O dia seria assim mesmo, mas com o tempo tudo resolve. Naquela hora, surgiu um problema mais urgente. Se deu conta da maquiagem borrada. Como se livrar da cara de urso panda no meio da rua? 

domingo, 1 de abril de 2012

Recheio de surpresa



Ela saiu de casa para comprar chocolate e voltou com uma sacola com dois pares de sapato. Há uma semana da páscoa, a menina estava determinada a preparar algo de especial para si mesma. Não dependeria de nenhuma outra pessoa para ganhar presentes naquela data. Escolheria o ovo que quisesse independente do tamanho e do preço. E se surgisse alguma dúvida, mesmo que pequena, entre um recheado com morangos e outro com surpresinha dentro, (Sim, ela cresceu, mas continua achando o máximo essas coisas de criança.) acabaria levando os dois. O salário chegou e a garota também conseguiu tempo para as compras, mas o entusiasmo foi se dissipando já no caminho para o shopping. Não entendia onde estava aquela euforia dos tempos de infância que faz a semana que antecede o domingo tão esperado durar como se fosse um mês. Entrou em duas lojas e percebeu que o desejo pelos doces não era maior que uma pequena trufa.

Passeou pelos corredores, resolveu almoçar e depois ver o que tinha de bom no cinema. Se deu conta de que o filme mais legal das últimas semanas já não estava em cartaz. Coisas que acontecem quando a gente arruma tempo para trabalhar, estudar, dormir, mas se esquece de pequenas vontades como ver uma peça de teatro ou dar uma volta no parque. Voltando à história dos ovos, foi se distraindo com outras coisas e acabou batendo uma preguiça, vontade de deixar para depois. E o assunto caiu no esquecimento quando viu dois sapatos numa vitrine. Gostou tanto que comprou sem pensar demais, coisa não muito comum para essa menina. Depois, seguiu para casa feliz, pensando em passar o dia deitada lendo um livro, acompanhada de uma música. Antes, visitou uma padaria e levou apenas um bombom. Foi sentindo como as coisas mudam, as vontades passam e outras vão crescendo. Meio sem planejamento, envolvidas pelo acaso, com cobertura de surpresa e recheio de novidade. 

domingo, 25 de março de 2012

Chega o natal...



“O melhor da festa é esperar por ela.” A menina sempre escutou essa frase embora nunca tivesse motivos para concordar. Via as amigas planejando penteados, comprando vestidos novos, falando dos garotos que estariam lá. Para ela, saber de uma festa era um motivo de tensão. Uma mistura de vontade de que passasse logo, ansiedade por todo o trabalho que teria para chegar lá mais ou menos bonitinha e o medo de tudo de errado que poderia acontecer antes, durante e depois. E o histórico não ajudava a ter uma visão mais otimista da comemoração. Depois de usar toda a criatividade para fazer com que roupas já bem conhecidas se combinassem parecendo novas, a sandália escolhida estragava no meio do caminho. No salão de beleza, a luz até chegou a acabar enquanto o cabelo tinha sido escovado pela metade. E quando a energia voltou, tudo parecia ficar bem até a chuva exercer o poder de transformar o cabelo em um pseudo Black Power mesmo sem encostar nele com uma só gota. 

As espinhas e o frio no estômago apareciam estrategicamente na véspera como é costume com todas as meninas que já tem algum problema de autoestima.  E no grande dia, valia sentar em uma cadeira molhada, se constranger graças à beleza das meninas chatas da escola, se sentir ridícula dançando ou ridícula por não dançar. Enfim, as festas pareciam não cumprir a risca o significado dessa palavra. Mas deixaram algo de engraçado. A confirmação de que as coisas não podem ser sempre do jeito que a gente quer, de que dá pra rir de pelo menos 80% das coisas ‘ruins’ que já aconteceram com a gente. Basta só o tempo dar de presente a maturidade necessária para jogar de lado a sandália estragada e dançar descalça. Molhar o cabelo bagunçado e prender acreditando que está ótimo. Encarar espinhas como sinal de juventude e a beleza dos outros como tão bela quanto a sua. E amenina só tem algo a dizer sobre isso: “Chega o natal, mas não chega essa tal maturidade”.    

domingo, 11 de março de 2012

Roupa preta



Nas mãos, luvas de renda preta que deixavam parte dos dedos a mostra. O suficiente para permitir que fossem vistas unhas cumpridas e cuidadosamente pintadas com um brilhante esmalte preto. Naquele sábado em que o sol mantinha, às 17h, o mesmo vigor do meio dia, a garota aparentava como que imune ao tempo.  A blusa negra, de tecido grosso, envolvia os braços por completo. E na menina tudo parecia querer ficar escondido. Nos olhos, delineador, rímel e sombra trabalharam juntos para que a escuridão tomasse conta das pálpebras, cílios e contornos. Talvez uma tentativa de fazer com que a maquiagem chamasse atenção suficiente para tirar o foco de um olhar sem cor. Outras peças de roupa, igualmente escuras, como saia e meia calça tratavam de ocultar as pernas. E na tentativa de se refugiar das pessoas, das cores, da vida ela se tornou uma figura impossível de passar despercebida. Ironicamente escolheu o jeito errado de tentar se ofuscar. Ou será que o desejo dela era, na verdade, atrair a atenção?

Independente da intenção, o fato é que entre a falta de cores os únicos sinais de contraste eram a caveira pintada nas costas e o rosto pálido da menina que denunciava a ausência de interação entre pele e sol. Quem está perto dela tenta entender o porquê do repúdio às cores, já que longe dos excessos e ligadas umas às outras numa combinação planejada pelo destino, só deixam tudo mais leve. Pode ser que a garota ainda não esteja preparada para isso, se viveu por muito tempo na escuridão. Afinal, nessa vida tudo que é novo é estranho e demora pra fazer sentido. Em algum momento ela vai acabar esbarrando num verde, tropeçando no amarelo, sendo envolvida pelo azul ou acariciada com um pouco de lilás. Nesse mundo doido, apesar de tudo ainda existe luz. O suficiente para as cores se revelarem. Depois desse encontro, a menina no fundo sabe o que virá.