domingo, 25 de dezembro de 2011

As intenções



Ela ganhou de presente dois livros: um que ensina a ter uma vida mais leve e outro que promete acabar com essa história de amores mal sucedidos. Parecem bons presentes, afinal livros são sempre legais, mas o que está por trás da entrega de um presente? Na prática, ninguém se preocupa em dar um embrulho bonito e um objeto escolhido com cuidado a alguém de quem não gosta. Quanto a isso não há dúvidas. Mas a garota ficou pensando o porquê de serem aqueles livros e não outros. Talvez um de aventura, um de comédia, uma biografia ou mesmo um de receitas. Sei lá. Na hora de receber os presentes, a gratidão e, em alguns casos a surpresa, tomam conta de tudo. O cheiro de páginas ainda não lidas, a textura da roupa que nunca foi usada e o sabor do primeiro bombom retirado da caixa preenchem o momento. Só que a menina não conseguia parar de pensar nos livros. 

O vestido novo e o chocolate voltaram para os papéis de presente, coisa que ela sempre fez tradicionalmente para ter o prazer de desembrulhar mais uma vez. Os livros ficaram ali nas mãos. Não que eles tenham maior ou menor importância, mas era impossível para ela não se ver refletida neles. Principalmente porque foram comprados por alguém tão próximo. Era constrangedor e, ao mesmo tempo, um alívio saber que alguém via o que estava acontecendo com ela. Eles eram uma forma sutil de dizer que os olhos da menina contavam do peso do cansaço e da dor de mais um fracasso. A garota retribuiu a gentileza com um abraço e começou a leitura de imediato. Achando que ali encontraria as respostas que procura. Mesmo sabendo bem que as respostas não estariam naquelas letras. Seriam no máximo pistas, ou nem isso.  Por estranho que possa parecer, alguém já tinha contado à menina onde estava o que ela tanto procurava. Faltou dizer onde ela pega o visto, o passaporte e as passagens para viajar até lá.

sábado, 17 de dezembro de 2011

25 de dezembro


Ela passou na porta da loja e não resistiu. Ah que vontade de comprar! Viu um pinheiro de natal de dois metros de altura todo decorado. Parecia um daqueles das casas das Helenas nas novelas do Manoel Carlos. (Aqui não farei a piadinha de que o autor lembra o bom velhinho) Na árvore, as bolinhas todas vermelhas e de vidro como as de antigamente. Nos sinos dourados, bastava encostar bem de leve para escutar aquele barulhinho inconfundível. Os laços de fita e caixinhas decoradas disputavam, gentilmente, espaço com anjinhos, papais noéis e outros enfeites ricos em detalhes. Infelizmente quem não era rica era a menina. O objeto tão desejado não cabia nem no orçamento nem no pequeno apartamento alugado. Voltou para casa com algumas poucas sacolas. Dentro de uma delas, um pinheirinho de 50 cm. Incomparavelmente menor que a animação da garota com decorações para o fim de ano. 

E esse nem foi um problema. Afinal, a árvore foi enfeitada com muito carinho e bom gosto. Ela mesma escolheu onde seria pendurada cada coisa e passou um bom tempo na loja até encontrar cores, texturas e formatos de acordo com seu estilo. Tudo preparado para ela, parecido com ela! Ao final, faltava colocar na ponta a estrela, brilhante e imponente a ponto de pretender transmitir a mesma beleza daquelas que enfeitam o céu. Embaixo da árvore, um presépio quase tão simples quanto a cama improvisada que recebeu aquele menino no dia 25 de muitos anos atrás. E bem do lado a garota colocou umas caixinhas de presente. O perfume que estava precisando, um pijama para substituir aquele que já estava velho demais e uma caixa de bombons. Coisas simples compradas para ela mesma, que seria a única pessoa a passar a noite de natal ali. Os amigos estariam ocupados demais com as famílias. E a família dela, muito longe, não apenas fisicamente. Mesmo sozinha, acendeu velas e preparou uma ceia caprichada. Ali ela entendeu que a história de que é ruim cozinhar para uma pessoa só, é mentira. Ás vezes a gente pode ser mais especial que uma multidão.     

domingo, 11 de dezembro de 2011

A reta final


Ela está ficando velha. De verdade. E não é porque chegou mais um aniversário. Até porque, para o bem ou para o mal, ainda falta quase um ano inteiro até se aproximar a tal data tão temida quanto esperada. O problema é que ela sente dor nas costas. E mesmo passando mais de 8 horas por dia sentada em frente ao computador ela jura que o motivo não é esse. Atribui à velhice cada dorzinha na hora de caminhar e pegar objetos do chão. Além de perder um pouco do preparo físico, a paciência está indo embora, com uma velocidade tão grande quanto aquela que a menina conseguia atingir há tempos atrás. Os problemas não são as filas dos bancos, os atrasos dos ônibus nem a lerdeza da internet. Ela está cansada de aguardar a sua vez de realizar os sonhos que já deixaram de ser sonhos para um monte de gente. Está impaciente com pessoas insistentes em dizer que a hora certa vai chegar. E como a reta final se aproxima, também quer respostas mais imediatas e, ao mesmo tempo, sente saudade de quando apenas vivia guardando a ilusão de que elas um dia viriam. 

As piadas viraram um assunto complicadíssimo. São machistas demais, preconceituosas demais, pornográficas demais, adolescentes demais, infantis demais ou sem graça demais. Parece que o contexto de cada uma delas ficou meio separado do tempo em que a menina vive. Também perdeu o gosto e a vontade de experimentar o novo. As músicas preferidas que o digam. São ouvidas a exaustão na mesma sequencia que já foi decorada sem maiores dificuldades. E não há espaço para conhecer os lançamentos. Pelo menos de falta de memória ela não sofre, o que para algumas situações nem chegaria a ser exatamente um problema. Com as habilidades intelectuais não atingidas de forma drástica pelo tempo, isso pode ser um indício de que a tal sensação de velhice não passe de uma fase de mau humor ou de descrença nas coisas da vida. O correr dos dias deve trazer ao menos essa resposta, ou não. Pelo visto, terá que se virar sozinha para descobrir isso também.            

sábado, 3 de dezembro de 2011

Quando virou joaninha


Uma capa vermelha com bolinhas pretas. Na cabeça, um cabelo muito bem preso com o apoio técnico de um gel desses que deixam os fios grudados como gêmeas siamesas. Para completar, um arco com duas anteninhas, colant preto e sapatilha. Era uma fantasia de joaninha para o baile de carnaval da escola. A menina tinha naquela época seus sete anos, e estava feliz com a roupa apesar do medo da reação dos outros. Depois de uma conversa com a mãe, sempre habilidosa na arte do convencimento, a garotinha tomou coragem para sair de casa. Um vizinho logo elogiou, dizendo que estava bonita. Ela ficou com vergonha, mas o comentário ajudou a impulsionar os passos lentos, medrosos e com vontade de nunca chegar, até a porta da escola. Entre piratas, bailarinas e fantasias que ela nunca entendeu do que se tratavam, surgiu a joaninha. Ficou quietinha ao lado da irmã que só esperava a abertura do portão para ir embora. De repente, a menina percebeu alguns dedos apontados em sua direção. Uns acompanhados de risadas e outro, em especial, carregava consigo uma gargalhada cruel e o comentário que nunca foi esquecido: “Parece o Chapolin Colorado!”. 

A reação foi imediata. Provavelmente uma pessoa nunca se encolheu tão rápido quanto ela. Ficou ali bem pequena, bem diminuída, quase do tamanho de uma joaninha de verdade. Só que joaninhas não choram, muito menos pedem à irmã, desesperadamente, para levá-la correndo pra casa. Com o pedido atendido, foi para o quarto gastar todas as lágrimas que tinha direito. O colo de mãe e os argumentos de sempre convenceram a menina a voltar para a festa. Só que já não adiantava mais. Não seria como antes. Quem voltou para a escola não foi a joaninha, era apenas uma menina de camiseta rosa, bermuda jeans e olhar triste. A condição para sair do quarto não poderia ser outra, jogar de lado a fantasia. No meio de palhaços, mágicos e florzinhas, voavam confete e serpentina por todos os lados. Até mesmo no canto onde a menina se refugiava. Só que por lá eles chegavam e perdiam a cor imediatamente. Enquanto isso, ela aprendia que não seria nunca mais uma joaninha. 

domingo, 20 de novembro de 2011

Para achar o equilíbrio


Ela aprendeu a andar de bicicleta sem cair nenhuma vez. E o aprendizado foi bem tarde, fora daquela época em que as crianças vão treinando com bikes pequenas. Daí tiram a rodinha da direita, depois a da esquerda, em seguida contam apenas com a segurança trazida pelas mãos do pai e, mais tarde, vão confiar em si mesmas e na sorte. A menina começou a praticar, com a bicicleta do irmão, quando tinha 15 anos. Ela se sentou apoiou as mãos e os pés já estavam pedalando. Claro que o irmão ficava ao lado segurando a bike para evitar os tombos. Quando percebia que a garota estava um pouco mais segura, ou melhor, menos insegura, ele soltava estrategicamente as mãos até a menina se dar conta de que estava andando sozinha. Naquele instante ela imediatamente se desequilibrava e começava a gritar. E lá estava ele para evitar a queda.  

Evitando o contato com o chão e fugindo da dor de um joelho ralado ou braço quebrado ela foi evoluindo até aprender a virar, descer ladeiras, subir morros e pedalar em pé. Na época em que já seguia sozinha, a segurança de quem havia aprendido estava ali. Mas de nada serviu quando a barra da calça ficou presa na corrente da bicicleta no meio de uma descida. Sem ninguém por perto, nem é preciso dizer o que aconteceu. Finalmente ela entendeu que para não cair era preciso cair. Nem que seja uma única vez. No fim das contas, nenhuma conseqüência mais séria, mas o medo de perder o controle e ir ao solo nunca foi embora. A menina até conhece o fabuloso segredo que bailarinas e acrobatas usam para fazer aquele monte de giros e se manterem de pé, inabaláveis. Basta focar em um ponto a sua frente. Só é preciso esquecer o que está ao lado, manter a cabeça em pé e resistir à vontade de olhar para trás. Mas até isso exige treinamento. Que pena...    

sábado, 12 de novembro de 2011

Hoje eu vou pro lado de lá


Ela está indo embora. E mesmo que sinta vontade não poderá mais voltar. Vai para um lugar diferente onde não imaginava ter que ir tão cedo, ou melhor, sabia que a hora chegaria, mas não queria. O jeito é levar junto todas as coisas que são dela de verdade. O cãozinho de estimação fará o trajeto numa caixa de transporte bem confortável e linda: rosa com prata. Mas antes de acomodar o bichinho para a viagem ela precisa esvaziar suas gavetas e preencher as malas. Começou o trabalho de baixo para cima e logo encontrou cartões de natal antigos, da época em que as pessoas não achavam brega entregar isso aos amigos no fim de ano. Algumas figurinhas repetidas de um álbum que nunca conseguiu completar se abrigavam no cantinho. A caneta bonita que ganhou junto com uma agenda e ambas não foram usadas porque eram tão lindas. A tinta da caneta foi poupada para não acabar nunca e agora que o tempo passou está seca e já não serve mais. Já a agenda, que é de 2002, deveria ter sido aproveitada há 9 anos atrás, quando era atual e não estava com as folhas amareladas. 

Logo ao lado, os adesivos que não escaparam da crueldade do passar dos anos: estão desbotados e não conseguem se prender a nada. Foi assim que a garota aprendeu a lição que levará para o resto da vida, usar imediatamente qualquer adesivo que tiver nas mãos. Certas coisas definitivamente não podem ser guardadas. Na parte de cima, envelopes, ingressos de shows e laços de fita que ajudaram a fechar papéis de presente jogados no lixo ou usados como embrulho mais uma vez. Também estavam lá cartões e uma foto de um antigo passado que parece tão recente. Esses não eram objetos dela e nunca foram na verdade. Mas estavam ali. Entre os vários destinos acabaram sendo enviados para o dono de fato. Como deveria ser. Agora naquela gaveta não há mais nada, só o vazio. O que não deixa de ser alguma coisa, né?! Como não tem mais o que fazer ali, a menina segue. Acabou de esvaziar apenas a primeira gaveta.      

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

O menino e a menina


Ela resolveu sair de casa com unhas coloridas. Uma combinação de três cores que faziam um efeito degradê. Fez achando que ninguém iria perceber, afinal, quem que fica reparando nas unhas dos outros? Mas ele percebeu. Enquanto levava um copo de refrigerante da mesa até a boca, escutou o menino dizer: “Suas unhas são bem diferentes”. A garota logo pensou que ele tinha achado ridículo e foi logo perguntando se o menino quis dizer que estavam estranhas. Ele disse que não. E depois de um sorriso falou que ela tinha mãos lindas. Quem que fica reparando a mão dos outros, gente? Tímida com o elogio, ela começou a observar as próprias mãos discretamente, os dedos compridos a pequena cicatriz do dia em que estava fritando batatas em casa e o pedacinho de cutícula não removido pela manicure. Meio que num susto, sentiu uma mão quentinha se aproximar e se juntar às dela. 

Ficaram as três mãos apoiadas na mesa do bar enquanto o garoto puxava papo com assuntos que iam perfeitamente se cruzando. Parecia tudo parte de um roteiro muito bem construído já que eles se entendiam tão bem e as risadas eram quase simultâneas. O tempo foi passando e eles não perceberam. Nem se deram conta de que as outras pessoas da mesa se afastaram. A garota ficou ainda mais vermelha quando descobriu isso. Tomou coragem para levantar a cabeça e encontrou dois olhos muito bonitos. Não eram das cores que costumam atrair a atenção dos outros, mas de um castanho escuro bem simples como um monte de coisas boas que existem na vida. E foi justamente bondade que ela viu misturada nos tons de castanho que só eram percebidos por quem prestasse muita atenção. Um degradê de castanhos. Se achando invasiva demais por ficar olhando tanto tempo para ele, abaixou a cabeça novamente e disse que precisava ir, afinal já era tarde. Mas não tarde o bastante para que o garoto segurasse a mão dela e dissesse: “Então vamos”.