domingo, 1 de abril de 2012

Recheio de surpresa



Ela saiu de casa para comprar chocolate e voltou com uma sacola com dois pares de sapato. Há uma semana da páscoa, a menina estava determinada a preparar algo de especial para si mesma. Não dependeria de nenhuma outra pessoa para ganhar presentes naquela data. Escolheria o ovo que quisesse independente do tamanho e do preço. E se surgisse alguma dúvida, mesmo que pequena, entre um recheado com morangos e outro com surpresinha dentro, (Sim, ela cresceu, mas continua achando o máximo essas coisas de criança.) acabaria levando os dois. O salário chegou e a garota também conseguiu tempo para as compras, mas o entusiasmo foi se dissipando já no caminho para o shopping. Não entendia onde estava aquela euforia dos tempos de infância que faz a semana que antecede o domingo tão esperado durar como se fosse um mês. Entrou em duas lojas e percebeu que o desejo pelos doces não era maior que uma pequena trufa.

Passeou pelos corredores, resolveu almoçar e depois ver o que tinha de bom no cinema. Se deu conta de que o filme mais legal das últimas semanas já não estava em cartaz. Coisas que acontecem quando a gente arruma tempo para trabalhar, estudar, dormir, mas se esquece de pequenas vontades como ver uma peça de teatro ou dar uma volta no parque. Voltando à história dos ovos, foi se distraindo com outras coisas e acabou batendo uma preguiça, vontade de deixar para depois. E o assunto caiu no esquecimento quando viu dois sapatos numa vitrine. Gostou tanto que comprou sem pensar demais, coisa não muito comum para essa menina. Depois, seguiu para casa feliz, pensando em passar o dia deitada lendo um livro, acompanhada de uma música. Antes, visitou uma padaria e levou apenas um bombom. Foi sentindo como as coisas mudam, as vontades passam e outras vão crescendo. Meio sem planejamento, envolvidas pelo acaso, com cobertura de surpresa e recheio de novidade. 

domingo, 25 de março de 2012

Chega o natal...



“O melhor da festa é esperar por ela.” A menina sempre escutou essa frase embora nunca tivesse motivos para concordar. Via as amigas planejando penteados, comprando vestidos novos, falando dos garotos que estariam lá. Para ela, saber de uma festa era um motivo de tensão. Uma mistura de vontade de que passasse logo, ansiedade por todo o trabalho que teria para chegar lá mais ou menos bonitinha e o medo de tudo de errado que poderia acontecer antes, durante e depois. E o histórico não ajudava a ter uma visão mais otimista da comemoração. Depois de usar toda a criatividade para fazer com que roupas já bem conhecidas se combinassem parecendo novas, a sandália escolhida estragava no meio do caminho. No salão de beleza, a luz até chegou a acabar enquanto o cabelo tinha sido escovado pela metade. E quando a energia voltou, tudo parecia ficar bem até a chuva exercer o poder de transformar o cabelo em um pseudo Black Power mesmo sem encostar nele com uma só gota. 

As espinhas e o frio no estômago apareciam estrategicamente na véspera como é costume com todas as meninas que já tem algum problema de autoestima.  E no grande dia, valia sentar em uma cadeira molhada, se constranger graças à beleza das meninas chatas da escola, se sentir ridícula dançando ou ridícula por não dançar. Enfim, as festas pareciam não cumprir a risca o significado dessa palavra. Mas deixaram algo de engraçado. A confirmação de que as coisas não podem ser sempre do jeito que a gente quer, de que dá pra rir de pelo menos 80% das coisas ‘ruins’ que já aconteceram com a gente. Basta só o tempo dar de presente a maturidade necessária para jogar de lado a sandália estragada e dançar descalça. Molhar o cabelo bagunçado e prender acreditando que está ótimo. Encarar espinhas como sinal de juventude e a beleza dos outros como tão bela quanto a sua. E amenina só tem algo a dizer sobre isso: “Chega o natal, mas não chega essa tal maturidade”.    

domingo, 11 de março de 2012

Roupa preta



Nas mãos, luvas de renda preta que deixavam parte dos dedos a mostra. O suficiente para permitir que fossem vistas unhas cumpridas e cuidadosamente pintadas com um brilhante esmalte preto. Naquele sábado em que o sol mantinha, às 17h, o mesmo vigor do meio dia, a garota aparentava como que imune ao tempo.  A blusa negra, de tecido grosso, envolvia os braços por completo. E na menina tudo parecia querer ficar escondido. Nos olhos, delineador, rímel e sombra trabalharam juntos para que a escuridão tomasse conta das pálpebras, cílios e contornos. Talvez uma tentativa de fazer com que a maquiagem chamasse atenção suficiente para tirar o foco de um olhar sem cor. Outras peças de roupa, igualmente escuras, como saia e meia calça tratavam de ocultar as pernas. E na tentativa de se refugiar das pessoas, das cores, da vida ela se tornou uma figura impossível de passar despercebida. Ironicamente escolheu o jeito errado de tentar se ofuscar. Ou será que o desejo dela era, na verdade, atrair a atenção?

Independente da intenção, o fato é que entre a falta de cores os únicos sinais de contraste eram a caveira pintada nas costas e o rosto pálido da menina que denunciava a ausência de interação entre pele e sol. Quem está perto dela tenta entender o porquê do repúdio às cores, já que longe dos excessos e ligadas umas às outras numa combinação planejada pelo destino, só deixam tudo mais leve. Pode ser que a garota ainda não esteja preparada para isso, se viveu por muito tempo na escuridão. Afinal, nessa vida tudo que é novo é estranho e demora pra fazer sentido. Em algum momento ela vai acabar esbarrando num verde, tropeçando no amarelo, sendo envolvida pelo azul ou acariciada com um pouco de lilás. Nesse mundo doido, apesar de tudo ainda existe luz. O suficiente para as cores se revelarem. Depois desse encontro, a menina no fundo sabe o que virá.  

domingo, 4 de março de 2012

Tá olhando o que?



Uma casinha antiga no centro da cidade. Lá dentro, pessoas que a garota nunca havia visto. Depois de tirar os sapatos, lá estava ela caminhando com uma leveza imposta de quem se sentia na obrigação de não fazer barulho. Mesmo sem motivo. As conversas também se mostravam contidas enquanto os pés deixavam cada degrau para trás rumo ao segundo andar. Logo já se encontrava em uma nova sala onde os iniciantes no centro de meditação se encaminham. A curiosidade, como de costume, era tanta que fazia cócegas na capacidade de concentração. Por isso que a menina não conseguia parar de observar a textura macia do tapete tão bem bordado que dava vontade de ter um igual em casa. As portas que se fechavam sem interromper o silêncio tentavam disfarçar a idade e desgaste das dobradiças. Os exercícios de relaxamento começaram após uma explicação teórica que, embora tenha sido breve, a ansiedade fez parecer uma palestra de três horas.

E ao começar as atividades, o que deveria ser o foco de concentração não conseguiu atingir sua meta. Bem na frente da sala uma mulher emoldurada com detalhes em amarelo olhava diretamente para o fundo dos olhos de quem dirigisse o olhar a ela. Ao redor daquela imagem grande, tecidos vermelhos e rendas cor de ouro. Entre as flores entregues de presente a aquela fotografia um pequeno foco de fogo que iluminava toda a sala e não demonstrava intenção de se apagar. A ideia era olhar para a mulher enquanto a cabeça ia jogando os pensamentos no lixo. E quem disse que a menina conseguiu focar a atenção naquela senhora? Seria inevitável não ficar imaginando como teria sido a vida daquela pessoa. E era estranho o olhar fixo que parecia tentar adivinhar o que estava na cabeça de cada um. Enfim, a garota não encontrou sentido no que era tão significativo para as pessoas daquele lugar. Mas parece que observando o caminho dos outros a menina consegue ir identificando qual é o dela. Mesmo que eles sejam diferentes.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Não apenas pelo livro



Correu desesperadamente e não conseguiu chegar a tempo. E como é frustrante o esforço sem o resultado esperado. Dá uma sensação estranha de raiva misturada com o cansaço e a impressão de não poder resolver as coisas. Pode parecer um draminha bobo, mas foi exatamente assim que a menina se sentiu. Ela precisava atravessar a cidade em 30 minutos para comprar um livro com urgência e acreditou que seria capaz. A meta ousada dependia de muitas coisas. Da força física para correr depois de um dia cansativo de trabalho, da pontualidade do ônibus, que sempre atrasa, e que o trânsito de fim de tarde de uma sexta-feira resolvesse promover uma grande mudança no visual engarrafado de costume. A garota fez a parte dela mesmo quando o fôlego já ia avisando que iria embora. A garganta seca começou a reclamar e a voz, para não ser obrigada a escutar reclamação, sumiu. Ônibus e trânsito não fizeram a parte deles e a menina chegou quando a porta da livraria já estava descendo até fechar completamente para dar descanso a quem trabalha lá dentro. 
    
Ela foi voltando para casa lentamente já que não havia solução. Até procurou em outros lugares, mas o livro só existia na tal livraria de portas fechadas. Ah se a Araújo cumprisse mesmo aquele velho slogan... Mas a solução não estava nem numa farmácia nem em uma livraria 24h. E o problema muito menos estava dentro da menina. De certa forma, até que estava, mas não da maneira que ela imaginava. Acabou correndo e correndo, no dia seguinte, e conseguiu finalmente comprar o livro. Prova de que até as coisas mais triviais tem o seu tempo certo. Não adianta. Por mais que quisesse, nunca teve nem nunca terá o poder de controlar o trânsito, o ônibus, o tempo, o clima. Mal dá conta de controlar o que está dentro dela. Também precisa entender que tem hora que a única opção é esperar. E ter a classe de aguardar como se deve: com tranqüilidade, a cabeça voltada não para o solo, mas para a linha do horizonte e a alegria de se divertir enquanto isso.



terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

O som do silêncio



Quando era criança torcia para não ser a última a dormir. Só a possibilidade de ficar no escuro acordada e sem ninguém para conversar deixava a menina assustada. Sem falar naquele silêncio esquisito que era invadido pelo barulhento ponteiro do relógio. Aquele pedaço fino de metal que se mantinha discreto durante o dia e escandaloso na madrugada. A imaginação resolvia ficar descontrolada com as luzes apagadas, daí era inevitável confundir um grande amontoado de roupas com um gorila. E é fácil entender o tipo de estrago que isso fazia em uma criança que morria de medo do King Kong. A coitada se encolhia debaixo do cobertor com a cabeça coberta. Acreditava que assim ficaria invisível para o macaco gigante e rezava para não precisar ir ao banheiro ou buscar um pouco de água.

Passados alguns anos, a menina inevitavelmente virou a última pessoa da casa a pegar no sono. Também é a última a chegar em casa e a jantar. E isso nem faz tanta diferença. O grande gorila das telas de cinema já não visita mais os pensamentos e, embora o quarto ainda abrigue uma pilha de roupas, é impossível não enxergá-la apenas como uma pilha de roupas. A imaginação já não fantasia a existência de um inimigo mirabolante, está bem ocupada revirando problemas, obrigações, medos e inseguranças da vida real. E no mesmo ritmo o estômago vai se agitando numa demonstração que infelizmente não é de fome. Se fosse assim seria simples já que a garota não se sente mais apavorada ao caminhar até a cozinha na madrugada. Para ela, durante a noite tudo parece mudado, menos o barulho do relógio no silêncio. Até sente saudades do tempo em que o King Kong era a única preocupação.      

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Hoje tem palhaçada!



Depois de crescida, ela resolveu ir ao circo. Um passeio desses que toda criança fez ao menos uma vez na vida. Toda criança, menos aquela garota. Os anos se passaram e ela ficou acostumada a ouvir falar que no circo tinha elefante, leão, gente cuspindo fogo e engolindo espada. Viu pela televisão como eram os palhaços e, para ser bem honesta, nunca entendeu porque as pessoas riam deles. Sapatos enormes, cabelos bagunçados, roupas coloridas, cara pintada e nariz vermelho. O que que isso tem de engraçado? A garotinha virou uma jovem e a duvida persistiu. Passou a ter pena daqueles que precisavam se vestir de palhaço para ganhar a vida enquanto as pessoas retribuíam com risadas constrangidas, afinal, era preciso achar graça. Sentia desprezo dos tantos palhaços que recebiam esse título sem precisarem de fantasia, apenas cruzando a vida das pessoas sentindo o prazer de fazer pequenos estragos enquanto os outros sofriam porque era o que se poderia fazer.  

Talvez o único encanto circense capaz de despertar a atenção da menina fosse a leveza dos artistas com poderes de mover o corpo para onde quisessem e sem o menor problema. Se para alguns pode parecer nojento colocar o calcanhar na nuca, para ela isso é mais mágico do que tirar coelho de cartola. É a possibilidade de ter controle sobre si mesmo no sentido mais amplo. E como seria belo caber dentro de uma mala quando a maior vontade na vida é se refugiar dos problemas e se sentir protegida. Quase tão bom quanto isso seria disfarçar uma queda ou um tropeço dando cambalhotas sem morrer de dor na coluna depois. A menina gostaria de fazer tudo isso e até tenta, mas antes é preciso ganhar elasticidade. Coisa que ela só vai conquistar quando aprender a ser flexível consigo mesma. As duas coisas andam lado a lado. Vai ver é por isso que tem tão pouca gente capaz de colocar o calcanhar na nuca quantas vezes for preciso e sem cara de sofrimento. Tem coisa que é difícil demais...