sábado, 29 de setembro de 2012

Roubando o lugar do não



Ela acabou descobrindo com o tempo que as coisas na vida, por mais complicadas que sejam, acabam convergindo para uma pergunta com apenas duas possibilidades de resposta: sim e não. E para passar pelo mundo fugindo dos olhares de reprovação, elegeu o “sim” quase que como resposta única. Rejeitar um presente, um pedido de ajuda ou uma ordem seria o caminho mais curto para que a garota tão estranha  vivesse ainda mais sozinha. A menina foi desde pequena se orientando para não desagradar quem quer que seja. Talvez essa seria a chave para a completa aceitação. Talvez fazer os trabalhos da escola para aquele colega mais preguiçoso, ficar acordada até tarde para revisar os textos de um vizinho ou emprestar o CD favorito, mesmo sabendo que ele dificilmente voltaria, fossem boas estratégias. Afinal, quem seria capaz de não tratar bem uma pessoa sempre prestativa? 

Foi assim que aprendeu a sufocar o “não” mesmo quando ele estava por lá para garantir que a menina seria respeitada. Como essa lógica não tinha nada a ver com a lógica da vida, por sinal sem lógica nenhuma, só poderia dar errado. Estava correta mesmo era a lei da física de que toda ação produz uma reação de mesma força com sentido contrário. Enquanto o “sim” roubava o espaço que deveria ser do “não”, e o contrário também acontecia, o respeito pela vontade dos outros provocava o desrespeito, em igual medida, ao que fazia bem à garota. Tudo por escolher o destino  diferente do que se quer fazer. Agora ela deve ter entendido, mas infelizmente a distância entre saber e agir continua sendo longa.    

domingo, 19 de agosto de 2012

Vê se pode?!


Assistia filmes de terror a noite e com a luz apagada. A menina fazia isso quando tinha 8 anos e achava tudo o máximo. Aquele clima de suspense, a sensação de demostrar aos outros como era uma criança corajosa, principalmente para o irmão mais velho, tornava tudo ainda melhor. Claro que na hora de dormir a história era outra. Ela via em qualquer sombra de um móvel a presença discreta do Freddy Krueger. Uma pasta mal colocada em cima do guarda-roupa era igualzinho ao famoso chapéu do vilão. E as gradações de luminosidade permitiam fantasiar que ali estava a conhecida camisa dele, listrada com as cores do Flamengo. E como o universo desses filmes tem personagens para todos os gostos, também sobrava espaço para os brinquedos assassinos, bonecos deformados, e mocinhas que davam sentenças de morte via telefone. 

Mas naquela época, o medo aparecia com uma pitada de diversão, suavizado pela ideia de que o sono logo vinha e a claridade da próxima manhã também. As cenas eram assustadoras, mas nada que gerasse nojo ou algum incomodo maior. Estranho mesmo é que o mal estar diante do horror das telas só apareceu quando a infância foi embora. A menina começou a não se sentir muito a vontade com massacres de motosserras, golpes de machados na cabeça e gritos de pessoas aprisionadas. Pode ser porque quando se é pequena a realidade e a fantasia podem se vestir de verdade ou mentira com a conveniência dos pais e dos filhos. Tudo para manter as barbaridades da vida mais distantes. E ainda tem criança querendo crescer logo... Vê se pode?!    

domingo, 5 de agosto de 2012

Em segundo plano na vida



A menina saiu de casa para cuidar da própria vida. Não, ela não estava se mudando para viver como adulta longe da família. Fazia isso perto dos pais mesmo e não via nenhum problema nisso. O que ela tinha decidido era resolver pequenas pendências que sempre ficavam para trás porque a garota pensava: “Isso aqui não vai atrapalhar a vida de ninguém, então deixa para depois ou para nunca mais”. Mas ela estava enganada ao não tratar certas coisas tão pequenas como prioridades. Afinal, adiar uma visita ao médico, não renovar um documento já com a validade vencida ou deixar as roupas sujas se acumulando no cesto mostravam o descaso que mantinha com alguém tão importante: ela mesma.

A ânsia em deixar os outros sempre satisfeitos, fazer favores e oferecer ajuda para ser aceita, só trazia uma angustia que não passava. Era impossível garantir que todos estariam bem, o que inevitavelmente aparecia para ela como sinônimo de fracasso. Além disso, revelava como a menina se colocava em segundo plano na vida. Talvez por isso aquela saída para tirar o passaporte, fazer exames e ir ao banco carregava um significado especial que a bendita burocracia e a imensa fila não conseguiam apagar. A cada pendência resolvida ela se sentia como reservando um momento exclusivo para si mesma. E isso acabou gerando um efeito cascata. Apareceram mais e mais coisas para resolver e quando não surgiam ela inventava. Era bom demais cuidar de alguém que merecia tanto.

terça-feira, 3 de julho de 2012

Um envelope para ser feliz



A menina tinha acabado de completar 18 anos, mas ao olhar para o passado a sensação era de estar com uns 70 e não ter aproveitado nada da vida. Claro que isso é fruto de um dos resquícios da adolescência: o mesmo jeito dramático de encarar uma espinha, a perda de um namorado ou doença na família. Sem se dar conta disso, foi inevitável mergulhar em comparações com a melhor amiga, a irmã, a mãe, a pior inimiga e até o cachorrinho de estimação. Já carregava desde sempre a sensação de inferioridade por nunca ter feito uma bela viagem, nunca ter namorado, nunca ter ido a uma festa de casamento nem ao teatro. Eram muitos nuncas na cabeça. E naquela altura da vida, não tão alta quanto parecia para ela, precisava fazer alguma coisa para poder se sentir como se fosse alguém como os outros.

Abriu a gaveta da mesinha do computador e encontrou um envelope pardo e uma folha de papel ofício. Decidiu que a partir daquele momento ia sair em busca do novo e registrar cada nova conquista, cada passo até se tornar uma pessoa normal. Foi anotando no papel o primeiro Milk shake, a abertura de uma conta em banco, a compra de um depilador elétrico. Guardou o papel no envelope e para cada anotação tratava de colocar junto uma prova. Valia o ingresso do cinema, uma nota fiscal da comida tailandesa, a pazinha de um sorvete diferente. Era uma forma de arquivar dados objetivos que comprovassem que a menina não estava simplesmente deixando a vida passar. Algum lugar para visitar quando achasse que nunca tinha sido feliz. Passou a correr atrás de tudo o que via pela frente simplesmente para sentir o alívio de encher o envelope. E de tanto fazer isso passou a não ter mais tempo para conferir as anotações. Esqueceu de verificar com regularidade se estava sendo feliz. 

domingo, 22 de abril de 2012

A unha quebrou



Ela caiu da escada. Não foi nenhum daqueles tombos que viraram moda nas novelas em que a mocinha vai elegantemente rolando até descer por completo. Mesmo porque a garota caiu apenas do quinto degrau e estava subindo. Nos poucos segundos em que tentou se machucar o mínimo possível, foi ralando o cotovelo, batendo o joelho e cortando a parte de baixo do dedão direito. A unha do pé esquerdo que já estava parcialmente trincada, fruto de um chute acidental no canto do sofá, se partiu de vez. A menina estava protegendo aquela unha com um band-aid há dias, mesmo sabendo que uma hora ela iria se soltar e que isso seria necessário. Provavelmente tudo por medo de como seria ficar sem ela de uma vez e aguentar as consequências de deixar aquele pedacinho da pele desprotegida. Sem poder fazer nada, tratou logo de levantar do chão e perceber que a roupa não era mais branca, e sim marrom com tonalidades de vermelho. 

Ficou aliviada porque ninguém viu o que aconteceu, apenas escutaram o grito e quando as pessoas de casa foram olhar a menina já estava de pé. Pena que deixar algo escondido não faz com que não tenha acontecido. Se levantar imediatamente para escapar da vergonha não impede as cicatrizes nem deixa a roupa menos suja. A unha se soltou sem a menor possibilidade de retornar ao que era, fazendo do tombo na escada o complemento de uma pancada anterior. E já que tudo é uma sequencia, agora vem o momento da espera, a unha cresce, o sangue coagula e a roupa, só jogar na máquina que ela resolve. E como seria elegante se todas as coisas se comportassem como as camisas, calças e vestidos. Era só a lavadora se encarregar de tudo.   

domingo, 15 de abril de 2012

Alegria dos outros



Ela sentou no ônibus e inevitavelmente se aproveitou para ler as notícias do jornal do senhor que estava ao lado. Ele virou a página, começou a ler algumas piadas sobre sogras, portugueses e nordestinos e não parou de gargalhar. Ria com a naturalidade de quem acha algo realmente engraçado e seguiu dessa maneira até o momento de descer. Já a garota estava triste e não teve como não sentir inveja daquela alegria momentânea e tão pura. Ela até se permitiu exibir suas tristezas em forma de lágrimas que logo se encarregaram de ficar escuras. Culpa de quem acha que comprar lápis de olho a prova d’água é bobagem. E quando lembrou que havia se maquiado foi logo secar as lágrimas, mas a magoa de dentro tratou de enfeiar a beleza produzida do lado de fora.

Estava mal pelo cansaço de noites mal dormidas, muito trabalho, textos para ler e pelas más notícias que sempre veem embaladas como se fossem bons presentes. Pensou em como as coisas boas se tornam ruins e o contrário também. (No segundo caso, muito de vez em quando, mas fazer o que?) Mas o gosto salgado das lágrimas ajudaram a lembrar o mar e as últimas férias. Tentou pensar em coisas boas para ver se passava, mas não foi muito eficiente. Resolveu escutar música para ignorar o engarrafamento e afastar a melancolia. Às vezes isso funciona. Não deu certo, mas valeu a tentativa. O dia seria assim mesmo, mas com o tempo tudo resolve. Naquela hora, surgiu um problema mais urgente. Se deu conta da maquiagem borrada. Como se livrar da cara de urso panda no meio da rua? 

domingo, 1 de abril de 2012

Recheio de surpresa



Ela saiu de casa para comprar chocolate e voltou com uma sacola com dois pares de sapato. Há uma semana da páscoa, a menina estava determinada a preparar algo de especial para si mesma. Não dependeria de nenhuma outra pessoa para ganhar presentes naquela data. Escolheria o ovo que quisesse independente do tamanho e do preço. E se surgisse alguma dúvida, mesmo que pequena, entre um recheado com morangos e outro com surpresinha dentro, (Sim, ela cresceu, mas continua achando o máximo essas coisas de criança.) acabaria levando os dois. O salário chegou e a garota também conseguiu tempo para as compras, mas o entusiasmo foi se dissipando já no caminho para o shopping. Não entendia onde estava aquela euforia dos tempos de infância que faz a semana que antecede o domingo tão esperado durar como se fosse um mês. Entrou em duas lojas e percebeu que o desejo pelos doces não era maior que uma pequena trufa.

Passeou pelos corredores, resolveu almoçar e depois ver o que tinha de bom no cinema. Se deu conta de que o filme mais legal das últimas semanas já não estava em cartaz. Coisas que acontecem quando a gente arruma tempo para trabalhar, estudar, dormir, mas se esquece de pequenas vontades como ver uma peça de teatro ou dar uma volta no parque. Voltando à história dos ovos, foi se distraindo com outras coisas e acabou batendo uma preguiça, vontade de deixar para depois. E o assunto caiu no esquecimento quando viu dois sapatos numa vitrine. Gostou tanto que comprou sem pensar demais, coisa não muito comum para essa menina. Depois, seguiu para casa feliz, pensando em passar o dia deitada lendo um livro, acompanhada de uma música. Antes, visitou uma padaria e levou apenas um bombom. Foi sentindo como as coisas mudam, as vontades passam e outras vão crescendo. Meio sem planejamento, envolvidas pelo acaso, com cobertura de surpresa e recheio de novidade.